
A Cicatriz apresenta-nos um casal de jovens, numa relação evidentemente feliz e apaixonada, a passar férias no Rio de Janeiro. Depois de dias tão bem passados e preenchidos de encanto brasileiro, decidem aproveitar uma das últimas noites para jantar fora. Mas, quando chega a hora de regressar ao hotel, decidem fazer o caminho a pé e não se recordam se devem virar à direita ou à esquerda - é essa decisão, no entanto, que vai mudar para sempre a vida de ambos e de forma profunda.
«Lembro-me de que olhava para ele muitas vezes, quando, ao fim de semana, acordava mais cedo, e que pensava que não o merecia, porque ele era Luz e eu sempre vivi nas Trevas, entre aquilo que os outros viam em mim e elogiavam e tudo o que eu escondia e acreditava que, mais cedo ou mais tarde, seria revelado.»
Devorei este livro em dois dias, por ser pequeno e porque cerca de metade vai trilhando o caminho para chegarmos ao derradeiro dia e sabermos o que aconteceu, o que aguça logo a curiosidade.
Tenho lido algumas críticas sobre a parte inicial se demorar demasiado até chegar ao "dia D", divagando desnecessariamente sobre aspetos irrelevantes. Tendo a concordar, mas também compreendo porque a autora assim o fez e, honestamente, gostei tanto da escrita dela que não me importei de mergulhar um pouco mais em detalhes que não interessavam assim tanto.
«Nem sempre fui assim, tão pessimista e refém do destino inalterável e dramático, mas de há uns anos para cá, desde que aquilo me aconteceu, carrego em mim esse peso de que a desgraça escolhe a dedo quem está mais frágil e dá conta do pouco que sobrevivemos desde essa última tragédia.»
É um livro gráfico e duro, ainda que o acontecimento seja algo previsível, ou pelos menos os seus contornos de um modo geral.
Gostei bastante de todas as descrições do Rio de Janeiro e do facto de a cidade ser praticamente uma personagem do livro em si mesma. Ainda assim, há alguns pontos que me deixaram com opiniões ambíguas ou alguma amargura:
1. Porquê o Brasil? Sim, sim, sabemos que a segurança lá está por um fio, mas isto podia ter acontecido em praticamente qualquer parte do mundo. Focar na pobreza, nas favelas... Ok, se calhar alguém pode argumentar que dá a conhecer os dois lados do país, mas eu também acho que talvez esteja a estereotipar.
2. A autora explica que esta é a história que aconteceu na sua cabeça quando viajou para o Rio de Janeiro. Talvez isto responda à minha pergunta anterior. Também sofro de alguma ansiedade e por vezes também tenho pensamentos intrusivos do género. Não sei se me sinto confortável com a ideia de os materializar, prefiro esquecê-los. Dar vida a uma imaginação horrível onde me incluo parece-me mórbido.
3. Não sei o que achar da forma como a protagonista lidou com o seu trauma, mas também não me sinto confortável em criticar - afinal, que raio sei eu? Vou ser eu a dizer a alguém que experienciou um acontecimento traumático que essa pessoa está errada? Não. Mas é como disse: opiniões ambíguas ou alguma amargura.
No fim de contas, adorei a escrita dela, gostei de ser embalada na história até chegar ao dia (mesmo que com detalhes que nada interessam) e é sem dúvida um livro profundamente marcante e impactante. Gostei também de nos ter respondido à pergunta "e se?", da forma como nos contou a história alternativa - o que aconteceu no universo paralelo onde seguiram a direção correta. Dou quatro estrelas por isto. Mas também me deixará com outro tipo de reflexões e questionamentos menos positivos.

Também já li esse livro e gostei! Mas também não posso dizer que amei o final...queria outro final para ela, queria que ela resolvesse o seu trauma, mas nem sempre as coisas terminam bem, mesmo na vida real :(
ResponderEliminarÉ verdade! Deixou um gosto amargurado, mas não era para ser um livro com final "feliz"...
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