As aspas do título estão lá apenas pela flexibilidade da palavra; aquilo que eu considero problemático pode não o ser para outra pessoa. Achei por bem vir reflectir um pouco sobre este assunto.
Há muitos, muitos anos atrás li o Lolita do Vladimir Nabokov, um dos mais famosos clássicos da literatura e, apesar de neste momento não me lembrar mais de nada do livro (tirando, obviamente, o seu ponto central), lembro-me que gostei bastante dele. Li-o em 2012, portanto eu tinha 18/19 anos, e não vi qualquer problema em lê-lo. Hoje em dia a história é diferente: até gostava de o reler, mas tenho algum receio de o fazer porque tenho uma consciência muito maior do problema que existe no facto de a história ser uma história de pedofilia.
No entanto, o que origina este post nem sequer se relaciona com este livro - sendo que já o li, também já não é um problema - e sim com o facto de ter em mim um conflito interno muito grande associado ao facto de querer ler o Call Me By Your Name. Este conflito interno é muito parvo por si só se considerarmos que eu já vi o filme, mas vamos ignorar essa parte. Foi, na verdade, precisamente por ter visto o filme que sinto algum conflito em querer ler o livro. Tenho bastante curiosidade de o fazer, mas uma vez mais, para mim é outra clara história de pedofilia. Cheguei a pesquisar este assunto e vários argumentos são utilizados para contestar: 1) O facto de ser o Elio a iniciar a relação e não o Oliver; 2) O facto de a idade de consentimento em Itália ser de 14 anos, e o Elio já ter 17. Para o segundo não tenho resposta fundamentada, mas serve-me de pouco porque não acho 14 anos uma idade com maturidade suficiente para tal (e isto é apenas uma opinião pessoal). Já para o primeiro tenho a dizer que não me diz nada, porque isso não impede que o Oliver tenha deixado que o relacionamento continuasse.
E vocês podem dizer "e qual é o problema? É uma história de ficção!", e têm toda a razão mas, por algum motivo, é algo que me faz sentir um pouco desconfortável. Por isso, queria criar aqui um debate e perguntar-vos qual a vossa opinião sobre este assunto. Se também hesitam um pouco em ler livros com histórias mais problemáticas, se o fazem sem problemas, se se recusam em fazê-lo... Digam-me de vossa justiça!, que eu cá vou continuar com o meu conflito interno.
Lolita é um clássico. È de ler e reler.
ResponderEliminarA arte imita a vida tanto quanto a visa imita a arte.
Se formos a recusar a arte julgando o conteúdo ou o autor segundo as nossas próprias convicções morais, excluímos algumas das maiores realizações da literatura, das artes plásticas, do cinema.
E isso é das coisas contra que luto diariamente.
Também é verdade! Podemos perder obras incríveis :)
ResponderEliminarEu leio sem problema, neste momento ando de volta dos livros de Auschwistz .
ResponderEliminarPara mim não é assim tão simples: concordo que é importante lermos coisas que nos desafiem, ao mesmo tempo eu permito que as minhas convicções tenham uma "palavra a dizer" e penso que é cada vez mais importante sermos críticos e selectivos em relação ao que nos é oferecido. Um exemplo concreto: os filmes do Woody Allen são uma obra-prima? Há quem diga que sim. Tenciono vê-los? Não. Não vou contribuir para quem alguém assim continue com a sua carreira como se nada fosse. O cinema é uma área onde a veneração de monstros é claríssima...Faz-me lembrar um site que encontrei onde o utilizador podia ver se em determinado filme entrava alguém acusado de má conduta sexual - achei e ainda acho uma óptima ideia.
ResponderEliminarOs Lusíadas é uma obra-prima? Há quem diga que sim. Tenciono lê-lo todo? Não. Prefiro ler sobre colonialismo e racismo, questões que me interessam. É esta a posição que tenho em relação a muita obra presente no cânone literário...Prefiro direcionar o meu tempo para outro lado. Em relação ao Lolita, podemos dizer que não é um livro que glorifica a pedofilia - nem nunca foi intenção do autor que sucessivas edições do livro tivessem meninas em poses sensuais na capa. E as partes que parecem mais romantizadas - é preciso lembrar que é o Humbert a contar história e que ele não é um narrador confiável..
Mas la está, não é uma questão simples e eu não criticaria alguém por hesitar em ler algo que sente que vai mexer muito com a sua sensibilidade. Cada um tem as suas e o que não faltam são livros por aí...Não vi o Call Me By Your Name, mas li o livro - na altura estava meio mundo apaixonado pelo dito, eu gostei mas não tanto. Não tinha pensado nessa questão. Obrigado por a teres trazido.
Já tinha visto o filme, mas nem pensei pela perspetiva que estavas a falar aqui... Eu acho que lido bem com as histórias problemáticas. Custa-me um pouco mais quando vejo que são baseadas em factos reais, mas ai tento sempre pensar que posso aprender algo que um dia me pode dar jeito para me defender ou assim.
ResponderEliminarPor acaso, quando são coisas assim históricas e que aconteceram realmente, acho que não tenho tantos problemas em ler... Mas não sei dizer porque nunca li nada alusivo a esse acontecimento, por exemplo.
ResponderEliminarPercebo perfeitamente o que queres dizer. Eu não consigo ter uma opinião formada, penso que podemos perder boas obras ao recusarmo-nos a consumi-las, mas também percebo o não querer contribuir para os seus autores. Não concordo muito com a "cancel culture" total, mas também não concordo com dar dinheiro a quem não o merece (e aí, pirateando ou não, há sempre formas de contornar esse aspecto). Acho que comigo acaba por depender das situações - por exemplo, quero fazer a colecção inteira de livros do Harry Potter, mas já há anos que não gosto muito da J.K. Rowling e me recuso a dar-lhe esse dinheiro, por isso tenciono comprar usados. Mas depois, por ser uma experiência que não consigo ter em casa da mesma forma, já considero ir ao cinema para ver Fantastic Beasts e afins. Mas isto é também por ser algo que marcou a minha infância e que não consigo largar assim de um momento para o outro. Por outro lado, pegando no exemplo que deste, também me recuso a ver mais filmes do Woody Allen (vi uns quantos antes de toda a verdade sair cá para fora).
ResponderEliminarNo entanto, também referiste um aspecto interessante e no qual não tinha pensado antes: a intenção do autor. Também é certo que muitas vezes não vamos conseguir perceber bem essa intenção, mas em alguns casos pode ter a sua importância e peso na decisão de consumir, ou não, aquela obra. Enfim! Eu continuo sem conseguir formar muito bem a minha opinião, mas no que toca ao "Call Me By Your Name", efectivamente não me sinto muito confortável... Acho que parte de mim já não se sentiu muito confortável a ver o próprio filme, e desde então não consigo perceber como se normaliza e romantiza tanto aquela história...
Compreendo perfeitamente a tua "angústia", se assim se pode chamar.
ResponderEliminarAinda não li nem o Lolita nem o Call me by your name, mas sobre este último vi o filme duas vezes, antes de cair na polémica e também antes de me aperceber das problemáticas que ali existiram. Acho que gostei demasiado da cinematografia para o ter interpretado de forma tão linear.
No entanto, não sobre a história em si, mas sobre quem a cria, escreve, realiza ou até canta, confesso que já tive mais facilidade em separar a arte do artista e que nos dias de hoje quando há alguém com posições ou ações muito graves atrás de uma obra que até podia achar extraordinária, isso mexe com a minha opinião. Se é justo ou não, isso não te sei dizer mas tem sido a minha realidade.
Também é verdade. Acho que no meu caso depende das minhas "sensibilidades", não tenho problemas com histórias desse género, homicídios, etc. Mas pegando no exemplo deste post, histórias de pedofilia já me fazem sentir um pouco mais desconfortável. Por isso acho que a minha opinião vai sempre depender da situação, no fundo...
ResponderEliminarEu acho que para mim vai sempre depender um pouco da situação. Da mesma forma que em certas circunstâncias tento separar a arte do artista, também noutras me recuso a fazê-lo. Acho que acaba sempre a depender dessas circunstâncias.
ResponderEliminarMas, no que diz respeito ao Call Me By Your Name, o que fiquei a perceber com estas conversas todas nos comentários foi que, efectivamente, já não me senti muito confortável com o filme sequer. Desde então incomoda-me um pouco a forma como toda a gente normaliza e romantiza tanto aquela história (não sei até se isso não me causa mais desconforto do que a obra em si).
Sem dúvida amiga!
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